18.2.15

Democracia e Escola Pública (Parte 2)

Comemoramos o fim da ditadura militar e celebramos nossa jovem democracia com ares triunfalistas, como se esta estivesse consolidada. Contudo, creio que a discussão acerca da democracia está mirrada.

Não acredito que exista de fato democracia no Brasil. O povo brasileiro, assim como os demais povos latino-americanos, nunca decidiram absolutamente nada.

O modelo político vigente é um dos promotores dessa falsa democracia. O povo decide unicamente quais partidos governarão o país, mas as decisões que podem transformar as realidade sociais são tomadas  fora da esfera popular. Depois das eleições o povo fica impotente e alienado do poder. Os partidos políticos, os grandes grupos econômicos, as organizações internacionais (como o FMI, Conselho de Segurança da ONU, OMC, etc...) e os grandes grupos midiáticos, manobram os países do terceiro mundo.

Penso que a democracia latino-americana é amputada e está longe de ser genuína. Um povo sem educação é incapaz de analisar criticamente seu lugar na história, e não é hábil o suficiente para discernir manipulações e abusos políticos, patronais e religiosos.

Nesse sentido, a escola brasileira é a herdeira cultural da ditadura militar. A escola, com suas rotinas engessadas, disciplinas desprovidas de sentidos e valores, com conteúdos muitas vezes inúteis, é o principal instrumento de amputação das liberdades mais inerentes ao espírito humano.

Nesse período de redemocratização, a escola brasileira se mostrou incapaz de exaltar a "crítica" sobre o "conteúdo", e a "criação" sobre a "memorização". Numa ditadura, um cidadão crítico e criativo é um sujeito perigoso, mas a inteligência e a autonomia são indispensáveis ao estado de direito.

Uma escola em que o aluno não decide absolutamente nada, que não goza de nenhum grau de autonomia e liberdade, e que é mutilado com atividades e provas compostas de questões fechadas e binárias, forma, sobretudo, "cidadãos" incapazes de reconhecer seus direitos e lutar por eles, de escolherem e de expressar suas ideias e escolhas.

Portanto, não há democracia sem educação libertadora, gratuita e para todos.

16.2.15

Democracia e Escola Pública (Parte I)


Entre as duas grandes guerras do século XX, muitos professores alemães propagaram a doutrina oficial do Estado. Esta doutrina mais tarde justificaria o extermínio de cerca de seis milhões de judeus (e outros grupos como portadores de necessidades especiais e  ciganos)  em campos de trabalhos forçados e câmaras de gás.

Sim, muitos professores alemães, tanto pela ação quanto pela omissão, foram peças fundamentais para que um genocídio acontecesse. 

A escola é a maior força política de um povo. Seja ela ativa ou omissa, seu trabalho determinará os rumos de toda ccomunidade. Os educadores precisam perceber as implicações políticas de suas ações e omissões. Precisam perceber que formam ou pensadores ou massa inerte de manobra.

Esse fato vem de encontro à postura atual de sservidores da educação que declaram, em tom passivo e débil, serem empregados do Governador, e que por isso seguem cegamente o Currículo e determinações do Estado.

A Escola Pública Estatal, antes de ser Estatal, é pública. Ou seja, existe para a comunidade e a partir da comunidade.

Uma vez que a comunidade é humana, a Escola deve servir em primeiro lugar ao humano e a seus direitos mais sagrados: direito à liberdade, à vida e a uma existência plena de dignidade e dos mais variados sentidos.

Desta forma, qualquer ortodoxia sugerida pelo Estado que esmague, oprima ou mesmo ofusque o esplendor humano, deve ser intensamente rejeitada e combatida pelos professores e pela comunidade local. Assim, o Currículo e as diretrizes dos governos (ou de qualquer outra instituição) devem ser alvo de vigilância, reflexão e crítica perenes. Nunca devem ser simplesmente aceitos como naturais, divinos, imutáveis e acima de qualquer suspeita.

Espero que os professores da América Latina não escorram pelo ralo da história como os mestres nazistas. Anseio que militem ao lado de seus estudantes, até à morte se necessário, por uma vida justa, bela, e de pés, mentes e lábios desatados.