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Mudar Para Permanecer

Nas últimas dez semanas repensei minha vida profissional. Considerei se realmente gostaria de passar meus próximos 30 ou 40 anos a dialogar sobre ciências da natureza com adolescentes.

Essa reconsideração nasceu de uma exaustão. Confesso que estou exaurido e desanimado.

Quando penso na dependência tecnológica que os países do terceiro mundo tem em relação aos países ricos, e como essa dependência gera miséria, exploração, degradação ambiental e humana, fico profundamente aterrado. Creio que a educação científica do jovem latino americano pode mudar esse quadro.

Contudo, quando vejo meus alunos entorpecidos pela tecnologia que os aliena, completamente desinteressados pela própria vida acadêmica e formação intelectual, e com a identidade cultural adoecida, sou acometido por uma sensação paralisante de impotência e frustração. Como lidar com alunos que não vêem qualquer sentido no próprio processo educativo?

Estou ciente de que esse quadro não é exclusividade de meus estudantes, mas é geral no Brasil e América Latina. Historicamente o professor foi proletarizado ao mesmo tempo em que a educação de base foi sucateada. Não posso negar que a universalização da educação representou um grande avanço no Brasil. Contudo ela foi feita mais pela força da lei do que por uma real expansão dos recursos e estruturas educacionais. O resultado dessa universalização mal executada é o que se vê agora.

Claro que a esses processos da própria educação pública deve se somar outros fatores:

i - A mídia que promove a alienação e desculturalização;
ii - A sociedade, tão gritantemente, dividida em classes;
iii - A má formação dos educadores (a começar pela minha);
iv - Currículo arcaico, que serve aos interesses do capital e implora para ser reformulado;
v - Livros didáticos que atendem à demanda dos vestibulares em detrimento das demandas sociais.

Concluí com essa reflexão que continuarei na carreira de educador, DESDE QUE persiga e conquiste as seguintes mudanças:

A - Migrar definitiva e integralmente para a educação pública.

B - Prosseguir no estudo da Filosofia e Sociologia da Educação por muitos anos (quiçá até o fim da vida).

C - Produzir novos materiais didáticos.

D - Mudar-me para um município menor, relativamente distante de determinadas mazelas urbanas e com melhores condições de vida e ambientais.

Mudo.

Insisto.

Permaneço.

{Sugiro que todos assistam o vídeo produzido pela Univesp Tv sobre Capital Cultural, baseado nas idéias de Pierre Bourdieu}