25.7.10

Onde Comprar?




Hoje pela manhã levei meu pai ao mercado onde fazemos compras costumeiramente. Como não gosto de fazer compras, esperei no estacionamento.

De início, incomodou-me a presença de um casal entre a saída do mercado e a entrada do estacionamento. O moço aparentava ter a minha idade, moreno forte, com uma calça de metalúrgico enrolada até o meio das canelas, muito suja e rasgada, com um tênis surrado e com a camiseta jogada nos ombros. A moça parece ter no máximo 21 anos, esbelta, de pele branca e cabelos enroladinhos e claros. Suas roupas eram tão sujas quanto a de seu companheiro.

Observei com atenção meu pai passar ao lado desses prováveis andarilhos. Enquanto ele passava despreocupado, reparei que o rapaz sacou algo de dentro de uma sacola que não consegui identificar de primeira. Virei para pegar os óculos enquanto meu pai sumia na esquina do prédio. Olhei novamente e pude ver um pão francês sendo partido ao meio e devorado a seco pelo casal.

Liguei o rádio e abri um livro numa tentativa vã de mudar os rumos do pensamento, mas aqueles dois não me saíam da cabeça. Estavam bem ali a minha direita, recostados na banca de jornal. Conversaram por alguns minutos sem desconectar seus olhares um do outro. Do que estariam falando? Seus rostos não expressavam preocupação. Ao contrário, eles pareciam empolgados e felizes. De repente, ela saltou no pescoço dele num abraço de dar inveja.

Poucos minutos depois meu pai aparece com o carrinho na esquina do prédio, resvala nos amantes e segue em direção ao carro. Colocamos as compras no banco de trás e num breve silêncio seguimos para casa.

-Você reparou no casal no estacionamento?
-Sim. Fiquei com medo deles te roubarem.
-Eles estavam dividindo uma lata de sardinha. Deu vontade de voltar e compra algo para eles.
-Fiquei pensando que o amor deles é deveras sem interesses. Eles só tem um ao outro. Eles tem a minha idade...

Passei o restante do dia pensando nos dois. Ainda não sei o que me tocou nesse episódio, se foi a pobreza dos dois; ou se apesar da pobreza ainda tinham carinho e respeito um pelo outro; ou se foi simplesmente o fato de duas pessoas se amarem. Penso que a última hipótese é por si só intrigante e digna de muita reflexão e algumas canções.