12.2.10

Espelhos



Engasgado, bate o sinal para a quarta aula. Sem demora, o Professor Jean entra na sala com seus passos largos e apressados. Inteligentíssimo, mas pouco interessante. Tem a particularidade de não olhar nos olhos de ninguém. Começa mais uma sonífera aula de história no 2º Exatas B.

A sala, com suas fileiras tortuosas e seu mural rasgado, parece receber Jean com frigidez e descaso. Até os alunos novos já perceberam, em plena segunda semana de aula, a desconexão dessa figura mórbida.

Em ambos extremos da sala estão os novatos. As moças são hostilizadas pelas veteranas que as julgaram um tanto esnobes. Os rapazes parecem observar, inertes, a beleza tanto das novatas quanto das alunas antigas.

Entre as veteranas, Diana destaca-se por suas boas notas e pela personalidade forte. Estranhamente, senta-se há três anos na mesma carteira, na fileira central, próximo ao fundo da sala. Na mesa estão gravados os nomes de algumas bandas antigas, times de futebol, suásticas e alguns pervertidos esboços de corpo de mulher.
Ao perceber a presença de Jean, Diana dá uma última olhada em seu espelho e o guarda. Entediada, abre o caderno. Este espelho é uma recordação de sua falecida mãe. É no formato de ostra, prateado, com folhas de figueira gravadas em baixo relevo. Em uma das bandas há um espelho arranhado e na outra uma fotografia de sua mãe nos tempos de solteira.

Diana até tenta manter sua atenção em Jean, mas a cena que ocorre bem a sua frente é imperdível. Ivete entrega a Luciano um pequeno bilhete no verso de um recado da coordenação. Luciano pega o bilhete com ares de desconfiança enquanto Ivete, dissimuladamente, olha para a lousa.
Seus pensamentos jorram com tanta violência que seus lábio pulsam enquanto seus olhos apertados parecem sumir no rosto.

Que cachorra vagabunda! O ano nem começou e a piranhuda já está atirando para todos os lados. Quem ela pensa que é com esse decote no uniforme? Alguém precisa avisá-la que meia se usa nos pés e não no sutiã! Cada foto no Facebook que a Play Boy mandou lembrança. Vai entender... Bom, sei lá, cada um é cada um.

E o Luciano, esse babaca, se abre como uma mala velha?! Vai entender esses meninos! Ele é o rapaz mais maduro da sala e ainda assim encanta-se com os flertes da Ivete! Ele é tão crítico! Duvida de tudo e sempre questiona os professores. Coitado, os meninos zoam ele o tempo todo por não se ajuntar ao bando de vira-latas do colégio atrás das cadelinhas no cio. Mas ele está nitidamente balançado! Uma hora dessas ele cede; a pressão é muito grande!

Nunca vou esquecer aquele nosso beijo na volta da viagem de formatura. Enquanto todos dormiam, nós falávamos cada vez mais baixinho. A luz da estrada revelava seu piscar cada vez mais duradouro e com intervalos cada vez menores. Como ele é tímido. Tomei a iniciativa e não me arrependo. Reclinei a cabeça no ombro dele e ele aceitou.
De repente beijei o bobão! O único menino da escola que beijei. Foi tão bonito. No outro dia o safado fingiu que nada havia acontecido. Ele não contou para ninguém. Eu também não.

Não acredito, ele está respondendo o bilhete! Olha só a cara de satisfação dessa vadia. Mas talvez ela esteja certa. Os meninos são doidos com ela. Já eu, só atraio os meninos quando eles querem copiar a lição de casa. Talvez eu devesse andar mais com a Ivete, dar uma mudada no visual e ir à caça. Que mal tem? Eu até pareço uma freira. Nossa, preciso de um pouco de ar. De tanto calor já estou pensando bobagens.


- Professor, posso ir ao banheiro?
-Claro.

O banheiro estava escuro, mas Diana parecia não se incomodar. O espelho manchado e cobertos de pingos de ferrugem faz o banheiro parecer muito maior. A torneira por muito pouco não avança além da pia rasa e curta. Diana tenta inutilmente não molhar a roupa nos respingos da pia. Apara a água com as mãos, inclina-se e afunda o rosto sem maquiagem como quem quer afogar o espírito. Depois de alguns segundos ergue-se; ainda com os olhos fechados respira profundamente.

Ao abrir os olhos, Diana fica estática com o que vê no espelho. Ela vê-se vigorosamente bela e reluzente. Nunca havia reparado como seu rosto lembra o de sua mãe. Por um instante, Diana não sabia se a imagem no espelho era a de sua mãe ou seu próprio reflexo. Suas mãos trêmulas são atraídas lentamente para tocar aquele anjo doce que parecia desprender-se da parede e ir ao seu encontro.
As lembranças de sua mãe materializaram-se naquele momento. Seus dedos encostaram-se por um segundo no espelho. A força, a coragem, o carinho, tranquilidade e determinação de sua querida mãe abraçam-na num toque inexplicável. De repente a luz do banheiro acende-se.
- Diana, por que você está demorando tanto?
- Já estou indo inspetora.

Ao olhar para o espelho novamente, Diana vê seu rosto cotidiano. Mas algo está diferente. Ela está linda. Seu tronco está mais ereto e os ombros aprumados. Carrega confiança no olhar e em seus lábios um intrigante sorriso.

- Tudo bem Di?
- Muito bem Luciano, muito bem! Eu perdi alguma coisa?
- Não sei. Não estava prestando atenção. Aliás, você está linda hoje.
- Obrigada Lu.

Pêêêêêmmm. Engasgado, bate o sinal para quinta aula.