18.10.09

Além da Superfície


Nada mais intrigante que o amor materno. As gestantes acariciam o ventre, conversam com a matéria informe e sonham com os olhinhos de seus filhos.

Mas como amar alguém a quem nunca vimos? Como amar alguém que nunca lhe dirigiu uma palavra? Como amar incondicionalmente? As mãe são capazes de amar filhos fisicamente perfeitos e amar ainda mais os portadores de deficiência física. Elas amam os filhos com síndrome de Down, cegos ou com paralisia. Bonito ou feio, se é que isso existe, não importa. As mães são seres capazes de transcender todas as barreiras para amar seus filhos.

Outro fato tão intrigante quanto o amor materno é o desprezo e o ódio gratuitos. Neo-nazistas, a Ku Klux Klan e os conflitos étnicos na África e Ásia são exemplos de ódio pessoal gratuitos. Um KKK pode odiar um negro sem saber absolutamente nada sobre ele. Um homossexual pode ser desprezado, hostilizado e mesmo agredido por pessoas que nunca o viram até então.

Mas existe um tipo de desprezo mais sutil e sem represálias morais ou éticas. A segregação do apartheid e os impérios fascistas passaram, mas a ditadura da beleza perpetua-se e ganha cada vez mais força. A mídia e a moda estabeleceram modelos e padrões de beleza inatingíveis, e a sociedade segrega os mais distantes desse padrão.

Já percebeu que as vendedoras de muitas lojas como o Boticário e a Chilli Beans seguem um determinado padrão estético? Quantos homens deixam todos os dias as mães de seus filhos para se aventurarem com mulheres mais jovens?! Solteiros desconsideram como possíveis pretendentes outras pessoas apenas por não preencherem requisitos estéticos que em poucos anos não farão nenhum sentido. O tamanho dos seios ou o tônus dos braços são os primeiros a serem analisados por grande parte das pessoas. Depois é analisada a personalidade, história de vida, posicionamentos, sonhos, etc...

Meu maior desafio como ser humano é olhar cada desconhecido como a grávida que vê além da própria pele. Quero ter a consciência de que as pessoas possuem uma aparência e não o contrário, e que essa aparência não diz absolutamente nada do que elas de fato são. Contudo, confesso que estou a anos-luz dessa realidade.

Creio que amadurecer é enxergar o quanto éramos imbecis, intolerantes e superficiais num passado extremamente recente. Que meus primeiros grisálhos me lembrem todas as manhãs que é hora de amadurecer.