21.11.08

Escola Privada



Certa feita, perguntei para uma estudante de ensino médio qual era o conteúdo abordado atualmente por seu professor de matemática. Ela respondeu animadíssima:
-Ele está terminando o capítulo dos logaritmos. É bem fácil.
Perguntei desconfiado:
-Para que serve um logarítimo?
-Não sei. Não me interessa. "Para que serve" não cai no vestibular.

Esse pequeno diálogo ilustra exatamente para onde a educação privada no Brasil caminha. A grande tendência em educação particular no Brasil é a aderência das escolas aos sistemas de educação voltados para o vestibular.

"Objetivo", "Anglo", "Etapa", "COC", "Universitário", etc... venderam centenas de franquias nos últimos anos. Cada uma com suas apostilas "super atuais", exercícios dos últimos vestibulares e com seu método exclusivo que garante sucesso nos exames admissionais da universidades públicas. O livro didático conseguiu o prodígio de encontrar um substituto ainda pior do que ele! (Sobre o livro didático, falarei num próximo artigo).

A educação particular no Brasil está diante de seu maior paradoxo. Ou cede à lógica emburrecedora do vestibular, e oferece uma educação massificada e marcada pela alienação, ou proporciona uma reflexão interdisciplinar e perde boa parte de seus clientes.

A educação oferecida pelas principais empresas pré-vestibulares ganhou a classe média brasileira, que jura comprar o melhor pacote educacional para seus herdeiros. Não quero neste artigo discutir a eficiência desses sistemas, pois de fato eles fazem o que se comprometem a fazer: enfiam seus clientes nas universidades. O que questiono é a privação intelectual e educacional desses alunos.

O que é feito nestas empresas é o treino frenético para a resolução de alguns poucos tipos de exercícios no menor tempo possível. Não há reflexão. A memorização é uma prática comum e necessária. O espaço para o seminário e trabalhos em grupo foi suprimido pela aula expositiva do professor e pelo individualismo dos alunos, que não são mais amigos, mas sim concorrentes. O ensino desses grandes sistemas visa preparar o aluno-cliente para uma única prova. O fato ignorado é que existe vida após o vestibular.

Além disso, não há espaço para discussão sobre os problemas políticos, ambientais, e sociais da comunidade na qual o aluno está inserido. Tudo é muito global e genérico. Tudo que deve ser explorado pela turma está na apostila, que por sinal é a mesma para o aluno da Av.Paulista e para o aluno da pequena cidade do interior. Democrático, não acha?!

O sistema não prevê a formação moral e profissional dos alunos. Afinal, ética não cai no vestibular. Com certeza os problemas do dia-a-dia do futuro profissional não se resumirão a pequenas questões totalmente desconexas entre si, com as respectivas soluções encontradas a partir da aplicação de uma simples fórmula, que ele pode decorar com uma musiquinha ou frase erótica.

A escola deve ditar como deve ser o vestibular, mas o que aconteceu nos últimos anos foi o contrário. A escola se adaptou ao vestibular.

Quando ouvi essa música pela primeira vez, há mais de uma década e meia atrás, ela não fazia tanto sentido como agora. Bem profetizou o Pensador:
"(...)
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Decoreba: esse é o método de ensino
Eles me tratam como ameba e assim eu não raciocino
Não aprendo as causas e conseqüências só decoro os fatos
Desse jeito até história fica chato
(...)
Então eu vou passar de ano
Não tenho outra saída
Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida
Discutindo e ensinando os problemas atuais
E não me dando as mesmas aulas que eles deram pros meus pais
Com matérias das quais eles não lembram mais nada
E quando eu tiro dez é sempre a mesma palhaçada

Refrão

Encarem as crianças com mais seriedade
Pois na escola é onde formamos nossa personalidade
Vocês tratam a educação como um negócio onde a ganância, a exploração, e a indiferença são sócios
Quem devia lucrar só é prejudicado
Assim vocês vão criar uma geração de revoltados
Tá tudo errado e eu já tou de saco cheio
Agora me dá minha bola e deixa eu ir embora pro recreio...

Juquinha você tá falando demais assim eu vou ter que lhe deixar sem recreio!
Mas é só a verdade professora!
Eu sei, mas colabora se não eu perco o meu emprego."
Estudo Errado-Gabriel, o Pensador.

Boa sorte aos vestibulandos que prestarão a prova da Fuvest nesse final de semana! (Agora não estou ironizando!)

T.M.Vaz