10.8.08

Física e Humildade


Tela de Luana Santana

"Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus;" (Mateus 5:3)

É inegável que nós, estudantes de Física, possuímos um conhecimento muito acima da média acerca do Universo. Das menores partículas aos limites das galáxias mais distantes, o Cosmo é revelado a passos largos a essa minoria privilegiada.

Também é inegável que esse conhecimento do Cosmo causa impressões diferentes em cada pessoa. Ele tanto causa deslumbramento e humildade, quanto arrogância e intolerância. Esse novo saber acerca do Universo nos instiga a repensarmos o nosso lugar no mesmo.

Uma visão mais detalhada da imensidão e complexidade do Universo material causa, numa parte dos físicos, a sensação de fragilidade e efemeridade. Blaise Pascal declarou:


“O que é o homem na natureza? Um nada em relação ao infinito, um tudo em relação ao nada, um ponto entre nada e tudo” e “Quando considero a duração mínima da minha vida, absorvida pela eternidade precedente e seguinte, o espaço diminuto que ocupo, e mesmo o que vejo, abismado na infinita imensidade dos espaços que ignoro e me ignoram, assusto-me e assombro-me de me ver aqui e não lá. Quem me pôs aqui? Por ordem de quem me foram destinados este lugar e este espaço?”


Apesar de vivermos um momento único e sem precedentes na história do conhecimento físico, temos uma infinidade de coisas a descobrir. Sobre isso Newton afirmou:


“Não sei o que possa parecer aos olhos do mundo, mas aos meus pareço apenas ter sido como um menino brincando à beira-mar, divertindo-me com o fato de encontrar de vez em quando um seixo mais liso ou uma concha mais bonita que o normal, enquanto o grande oceano da verdade permanece completamente por descobrir à minha frente” e “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.”


A afirmação de Jesus “Felizes são os humildes (ou pobres) de espírito...” ecoa pelos milênios e chega ao século XXI mais que atual! Dentre as virtudes exaltadas por Jesus, a humidade é a mais mal interpretada. Votos de pobreza extrema e repúdio à academia são exemplos que ilustram bem a tentativa de alcançar a humildade tão estimada outrora.

Contudo, humildade não é considerar-se inferior, miserável ou coisas do tipo, mas é considerar-se do tamanho que de fato se é. É a lente com a qual o indivíduo vê a si mesmo e a seu próximo. É a capacidade de ver o próximo (e se ver no próximo), seja ele quem for, em pé de igualdade. Seja rico ou pobre, velho ou jovem, culto ou sem estudo algum, crédulo ou cético, somos exatamente iguais.


Humildade é reconhecer que somos passageiros. Por mais poder ou fama que se possa alcançar, seremos levados como pó ao vento, sendo assim esquecidos completamente. É dizer como Pascal que “A grandeza de uma pessoa está em saber reconhecer sua própria pequenez.” É viver com singeleza, sem aspirações egoístas e exacerbadas. É dar-se ao mundo por inteiro. É apaixonar-se pelo rotineiro diminuto. É ver a beleza profunda num céu quase sem estrelas e sentir-se grato pela existência que se evapora rapidamente em direção ao reino dos céus.


T.M.Vaz