1.5.08

Espiritualidade (parte 3)

Felicidade é Sofrimento!





Talvez, a maior virtude dessa proposta de espiritualidade seja a capacidade de sofrer. Ao contrário de algumas proposições acerca deste assunto, não entendo que uma pessoa que desenvolveu sua espiritualidade não experimente a dor em seu cotidiano. Ao contrário. A dor é a base da construção dessa proposta.

O médico e escritor inglês Paul Brand, em seu livro “a Dádiva da Dor”, explica que a hanseníase é a perca da capacidade de sentir dor. O leproso pisa de forma inadequada, o que com o passar do tempo faz com que ele perca os dedos dos pés. Sem perceber, o doente coça o rosto até ferir a pele. A hanseníase não causa as chagas como se pensava antigamente. É o próprio leproso que machuca a si mesmo.

Da mesma forma, o mundo se alto destrói porque perdeu a capacidade de sofrer. Hoje em dia, grande parte das pessoas vaga pelas megalópoles sem se dar conta da multidão que está a padecer ao seu redor. São milhares de crianças que tiveram seus sonhos destroçados pelas drogas, violência e pelo abuso sexual. Os anônimos invisíveis, alcoolizados e famintos, esquecidos nas calçadas e nos becos imundos da cidade. Não sentimos mais nada. Estamos espiritualmente leprosos.

Me questiono as vezes se o conceito de “próximo” mudou com o passar do tempo. Máximas milenares como “amar ao próximo” têm outro sentido no mundo global? No decorrer da última ocupação dos EUA no Iraque, foi veiculada na imprensa mundial a foto de uma criança iraquiana que, durante uma ação militar, teve uma de suas pernas amputada por um tiro de fuzil enquanto andava de bicicleta. O mundo foi impactado com a face mais cruel da guerra.

Aquele menino é meu próximo? O conceito de proximidade está ligado exclusivamente a questões geográficas? Muitas pessoas no mundo todo ficaram momentaneamente chocadas com as imagens do menino iraquiano. Mas, muitas dessas pessoas não se chocam mais com as atrocidades que ocorrem em suas próprias cidades. Ficamos estupefatos com fatos fora do nosso universo cotidiano, mas nos acostumamos (desumanizamos) facilmente com os fatos que viraram rotina em nossa realidade. Assistimos os jornais como quem vê uma novela irreal. Os números das vítimas da violência, a miséria, as enchentes e deslizamentos de terras não mexem mais conosco. Ficamos endurecidos.

Penso que a dor é natural e inevitável aos animais. Contudo, sentir a dor do próximo é algo inerente ao espírito humano. Vivemos a desumanização da humanidade, ao passo que não sentimos mais a dor do próximo.

A vida que escolhemos para viver neste século nos impõem um novo rítmo. É preciso trabalhar, estudar, cuidar da saúde e da estética, consumir, etc. Não há tempo para os outros. Na verdade não há muito tempo nem para nós mesmos. Cada vez dormimos e sonhamos menos. Nos encastelamos no egocentrismo exacerbado.

A maior miséria é a falta de humanidade. E tenho a impressão que quanto mais riqueza acumulamos, mais alienados estamos da realidade do mundo. Não quero apelar para a devastação da África pelo HIV, fome, guerras e malária. Quero pensar primeiramente nas pessoas que compõem efetivamente meu universo pessoal.

Se me perguntarem o que é egoísmo, responderei que é ter apenas um coração a pulsar no peito. Felicidade é sentir a angústia dos desconhecidos, ouvir a voz dos insuportáveis e chorar com os que já perderam a motivação para viver.

Para ter esta percepção, é preciso primeiro desacelerar o passo. É necessário olhar as pessoas nos olhos com a alma polida, para ver o outro em si mesmo. Se você leu este texto até o fim, provavelmente está no caminho certo.

Perdoe o meu tom confessional.

T.M.Vaz