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Espiritualidade (parte 2)


Como o leitor pôde perceber na primeira parte desta série, proponho uma espiritualidade pouco convencional. Mas a questão que quero levantar neste artigo é o motivo que leva alguém a desejar desenvolver qualquer espiritualidade. Além disso, vou demonstrar neste artigo as razões pelas quais penso ser fundamental o exercício da espiritualidade.

A princípio, penso que muitas pessoas no decorrer da história desenvolveram uma espiritualidade hereditária, baseada apenas nas tradições de seus pais. Sociedades tribais, culturas orientais, povos antigos e outros grupos não tiveram muitas opções no que diz respeito ao pensamento religioso. O homem vê deus pelo mesmo prisma de seus pais e professores. Você já parou para pensar no seguinte: Se você tivesse nascido numa outra cultura, em outra época, num contexto religioso totalmente adverso ao teu, será que você teria as mesmas convicções religiosas e filosóficas? A maioria de nós nunca parou para pensar o quanto nossa cultura nos influenciou para que fossemos quem nós somos.

Além dessa hereditariedade, penso que outro fator fortíssimo para a propagação do pensamento religioso foi o proselitismo. O marketing religioso é um grande negócio hoje, mas não é uma prática nova. Ele já foi feito através de guerras, como nas Cruzadas, onde os sobreviventes entre os perdedores eram obrigados a se converterem a religião do vencedores. A propaganda das diversas crenças também foi feita através do ensino religioso nas escolas e universidades, da capelania em hospitais e presídios, e hoje em dia é feita sobretudo através da mídia. A crença é propagada nas telas e monitores ao lado dos partidos políticos e dos mais variados produtos de consumo.

Contudo, acredito que apesar da herança cultural e do proselitismo, há um fator que sobrepõem os anteriores: A necessidade humana de transcender a existência finita e material. É essa avidez do coração humano que faz com que o hereditarismo religioso e o proselitismo sejam tão eficientes. Me parece que o homem sempre soube que ele não se limita a um organismo biológico absurdamente complexo. Ainda que não admitamos, no fundo nós sabemos que somos algo além da carcaça física. E além disso, no íntimo sabemos que temos uma razão de existir. Essas percepções estão tão latentes nos últimos tempos que a população mundial está perto de um colapso psicológico em busca de respostas e conforto emocional.

Os templos religiosos estão abarrotados. Os livros místicos e religiosos são os mais vendidos há décadas. Peregrinações, movimentos, rituais, filosofias, e sacrifícios. Tudo está em alta e não somos hoje menos místicos do que já fomos no passado. Estamos apalpando no escuro, numa tentativa desesperada de encontrarmos algo firme e seguro para nos agarrarmos.

Entretanto, penso que toda essa sede pode ser e tem sido desastrosa. Nesse vale-tudo religioso, muitos tem perdido os sonhos, o tempo, a personalidade, os bens e a saúde. É de extrema necessidade uma espiritualidade verdadeira e sadia. Não porque precisamos de um deus ou um guia, mas porque precisamos de nós mesmo. Proponho uma espiritualidade que tenha uma razão de ser que vá além da tradição familiar, ou porque determinado marqueteiro religioso apresentou primeiro ou mais convincentemente seus dogmas.

Entendo que durante os milênios, a cultura deformou o caráter humano, matou a naturalidade e enjaulou a alma humana dentro de sistemas regidos por horários, dinheiro e leis arbitrárias. Não conseguimos mais ver a beleza humana nos olhos de uma criança. Estamos trocando a magnitude da natureza por um luxo efêmero que não nos satisfará em poucos anos. Escravizamos e exploramos nosso semelhante em nome da ganância. Se a humanidade se olhar no espelho, verá um cadáver sendo vorazmente consumido por seus próprios vermes.

Proponho uma espiritualidade que resgata nossa humanidade. Não quero ser mais espiritual. Antes quero ser mais humano.