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Espiritualidade (parte 1)


Este artigo inicia uma série de 20 reflexões onde tentarei expor idéias sobre uma espiritualidade sadia e verdadeira.

De início já declaro que não vou recitar a cartilha teológica de religião ou filosofia alguma. Eu tenho minhas convicções pessoais, mas quero pensar numa outra espiritualidade. Uma espiritualidade intuitiva e ao alcance de qualquer pessoa.

Quero propor uma espiritualidade que vai na contra mão do modelo vigente, se é que existe um modelo nesse panteão. Este modelo não visa o esvaziamento da mente, mas sim a reflexão. Não aprecia o isolamento, mas exalta a convivência como praxis suprema. Ele não massageia o próprio ego ou conciência com ações exteriores, mas busca a naturalidade, e sempre que possível, o anonimato.

Como esta proposta é intuitiva, quero começar a pensar livremente nos valores fundamentais. Para facilitar, vou enumera-los, porém não creio que estes sejam divisíveis ou sistematizáveis.

Proponho uma espiritualidade que enxergue o ser humano como a razão de ser das leis universais.

Penso no certo e no errado como valores universais e não culturais. A violência e a mentira por exemplo, independentemente da sociedade ou época, sempre foram e serão práticas erradas. Contudo, penso que estas leis universais foram estabelecidas para o homem e não o contrário. Não posso concordar com qualquer que seja a fonte sagrada que tenha suas leis acima da dignidade humana. Sistemas em que o transgressor ou apóstata deve ser punido com a morte não se encaixam nesta proposta.

Um exemplo clássico onde a religiosidade sobrepõem a vida humana são as piras na Índia. A cultura milenar de algumas castas ensina que quando um homem morre, é mister queimar todos os bens desse indivíduo, inclusive sua esposa. Milhares de mulheres foram queimadas vivas em nome de uma lei sagrada.

Esta proposta rejeita qualquer ato político, religioso ou ideológico que, para alcançar um bem maior ou a excelência de alguma forma, proponha qualquer tipo de violência, exclusão, secção, ou diminuição do humano. Portanto, essa cosmovisão não pode conceber a guerra santa, o holocausto, sacrifícios humanos, desvalorização da mulher ou da criança, menosprezo aos frágeis ou desdém aos velhos.

É fácil exemplificar esse conceito, que a primeira vista pode parecer anárquico. Quem nunca disse a celebre frase: "quem não tem pecado atire a primeira pedra"? Este relato retrata exatamente este primeiro valor. Uma mulher transgrediu as leis sagradas de sua cultura, e essa lei ordenava que tal mulher fosse apedrejada. Os religiosos de plantão rapidamente se aprontaram para executar a sentença, mas um raboni que pensava um muito a frente de seus contemporâneos, conseguiu ver que a vida daquela mulher era mais importante que a lei que a condenava. Ele conseguiu ver que a lei fora feita para a mulher e não a mulher para a lei.

A espiritualidade que proponho começa afirmando que a vida humana deve ser o principal alvo de todo preceito sagrado. O sagrado é o humano.