11.4.08

Red Fruits



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Espiritualidade (parte 2)


Como o leitor pôde perceber na primeira parte desta série, proponho uma espiritualidade pouco convencional. Mas a questão que quero levantar neste artigo é o motivo que leva alguém a desejar desenvolver qualquer espiritualidade. Além disso, vou demonstrar neste artigo as razões pelas quais penso ser fundamental o exercício da espiritualidade.

A princípio, penso que muitas pessoas no decorrer da história desenvolveram uma espiritualidade hereditária, baseada apenas nas tradições de seus pais. Sociedades tribais, culturas orientais, povos antigos e outros grupos não tiveram muitas opções no que diz respeito ao pensamento religioso. O homem vê deus pelo mesmo prisma de seus pais e professores. Você já parou para pensar no seguinte: Se você tivesse nascido numa outra cultura, em outra época, num contexto religioso totalmente adverso ao teu, será que você teria as mesmas convicções religiosas e filosóficas? A maioria de nós nunca parou para pensar o quanto nossa cultura nos influenciou para que fossemos quem nós somos.

Além dessa hereditariedade, penso que outro fator fortíssimo para a propagação do pensamento religioso foi o proselitismo. O marketing religioso é um grande negócio hoje, mas não é uma prática nova. Ele já foi feito através de guerras, como nas Cruzadas, onde os sobreviventes entre os perdedores eram obrigados a se converterem a religião do vencedores. A propaganda das diversas crenças também foi feita através do ensino religioso nas escolas e universidades, da capelania em hospitais e presídios, e hoje em dia é feita sobretudo através da mídia. A crença é propagada nas telas e monitores ao lado dos partidos políticos e dos mais variados produtos de consumo.

Contudo, acredito que apesar da herança cultural e do proselitismo, há um fator que sobrepõem os anteriores: A necessidade humana de transcender a existência finita e material. É essa avidez do coração humano que faz com que o hereditarismo religioso e o proselitismo sejam tão eficientes. Me parece que o homem sempre soube que ele não se limita a um organismo biológico absurdamente complexo. Ainda que não admitamos, no fundo nós sabemos que somos algo além da carcaça física. E além disso, no íntimo sabemos que temos uma razão de existir. Essas percepções estão tão latentes nos últimos tempos que a população mundial está perto de um colapso psicológico em busca de respostas e conforto emocional.

Os templos religiosos estão abarrotados. Os livros místicos e religiosos são os mais vendidos há décadas. Peregrinações, movimentos, rituais, filosofias, e sacrifícios. Tudo está em alta e não somos hoje menos místicos do que já fomos no passado. Estamos apalpando no escuro, numa tentativa desesperada de encontrarmos algo firme e seguro para nos agarrarmos.

Entretanto, penso que toda essa sede pode ser e tem sido desastrosa. Nesse vale-tudo religioso, muitos tem perdido os sonhos, o tempo, a personalidade, os bens e a saúde. É de extrema necessidade uma espiritualidade verdadeira e sadia. Não porque precisamos de um deus ou um guia, mas porque precisamos de nós mesmo. Proponho uma espiritualidade que tenha uma razão de ser que vá além da tradição familiar, ou porque determinado marqueteiro religioso apresentou primeiro ou mais convincentemente seus dogmas.

Entendo que durante os milênios, a cultura deformou o caráter humano, matou a naturalidade e enjaulou a alma humana dentro de sistemas regidos por horários, dinheiro e leis arbitrárias. Não conseguimos mais ver a beleza humana nos olhos de uma criança. Estamos trocando a magnitude da natureza por um luxo efêmero que não nos satisfará em poucos anos. Escravizamos e exploramos nosso semelhante em nome da ganância. Se a humanidade se olhar no espelho, verá um cadáver sendo vorazmente consumido por seus próprios vermes.

Proponho uma espiritualidade que resgata nossa humanidade. Não quero ser mais espiritual. Antes quero ser mais humano.

9.4.08

Espiritualidade (parte 1)


Este artigo inicia uma série de 20 reflexões onde tentarei expor idéias sobre uma espiritualidade sadia e verdadeira.

De início já declaro que não vou recitar a cartilha teológica de religião ou filosofia alguma. Eu tenho minhas convicções pessoais, mas quero pensar numa outra espiritualidade. Uma espiritualidade intuitiva e ao alcance de qualquer pessoa.

Quero propor uma espiritualidade que vai na contra mão do modelo vigente, se é que existe um modelo nesse panteão. Este modelo não visa o esvaziamento da mente, mas sim a reflexão. Não aprecia o isolamento, mas exalta a convivência como praxis suprema. Ele não massageia o próprio ego ou conciência com ações exteriores, mas busca a naturalidade, e sempre que possível, o anonimato.

Como esta proposta é intuitiva, quero começar a pensar livremente nos valores fundamentais. Para facilitar, vou enumera-los, porém não creio que estes sejam divisíveis ou sistematizáveis.

Proponho uma espiritualidade que enxergue o ser humano como a razão de ser das leis universais.

Penso no certo e no errado como valores universais e não culturais. A violência e a mentira por exemplo, independentemente da sociedade ou época, sempre foram e serão práticas erradas. Contudo, penso que estas leis universais foram estabelecidas para o homem e não o contrário. Não posso concordar com qualquer que seja a fonte sagrada que tenha suas leis acima da dignidade humana. Sistemas em que o transgressor ou apóstata deve ser punido com a morte não se encaixam nesta proposta.

Um exemplo clássico onde a religiosidade sobrepõem a vida humana são as piras na Índia. A cultura milenar de algumas castas ensina que quando um homem morre, é mister queimar todos os bens desse indivíduo, inclusive sua esposa. Milhares de mulheres foram queimadas vivas em nome de uma lei sagrada.

Esta proposta rejeita qualquer ato político, religioso ou ideológico que, para alcançar um bem maior ou a excelência de alguma forma, proponha qualquer tipo de violência, exclusão, secção, ou diminuição do humano. Portanto, essa cosmovisão não pode conceber a guerra santa, o holocausto, sacrifícios humanos, desvalorização da mulher ou da criança, menosprezo aos frágeis ou desdém aos velhos.

É fácil exemplificar esse conceito, que a primeira vista pode parecer anárquico. Quem nunca disse a celebre frase: "quem não tem pecado atire a primeira pedra"? Este relato retrata exatamente este primeiro valor. Uma mulher transgrediu as leis sagradas de sua cultura, e essa lei ordenava que tal mulher fosse apedrejada. Os religiosos de plantão rapidamente se aprontaram para executar a sentença, mas um raboni que pensava um muito a frente de seus contemporâneos, conseguiu ver que a vida daquela mulher era mais importante que a lei que a condenava. Ele conseguiu ver que a lei fora feita para a mulher e não a mulher para a lei.

A espiritualidade que proponho começa afirmando que a vida humana deve ser o principal alvo de todo preceito sagrado. O sagrado é o humano.

Infernos Fiscais

Já se perguntou onde Osama Bin Laden guardou os milhões investidos nos ataques de 2001? Como ele movimentou o dinheiro que financiou todo o plano terrorista? Após os ataques de 11 de Setembro os EUA, mesmo sem o consenso da ONU, invadiu o Afeganistão, numa ação que eles denominarão "Guerra contra o Terror".

Se fala muito de guerra contra o tráfico de armas e o tráfico de drogas no mundo inteiro. Mas você acredita mesmo que o dinheiro do tráfico é guardado embaixo do colchão? Os traficantes comandam guerrilhas urbanas em todo o terceiro mundo, e compram serviços de telefonia e telecomunicações, traficam influência, corrompem autoridades, compram veículos, passagens aéreas, propriedades imobiliárias entre muitas outras coisas. Mas como eles movimentam tanto dinheiro? Será em maletinhas pretas do tipo dos filmes da máfia?

No Brasil, semanalmente aparece um novo casa de corrupção milionária. Juízes, senadores, deputados, prefeitos, delegados, coronéis, governadores, empreiteiras, esquemas de licitações fraudulentas, desvio de verbas de creches e escolas... Contudo, uma fatia substancial do dinheiro geralmente não é localizado. Porém, quando é localizado, ouvimos falar daqueles pequenos países, monarquias, estados independentes, ilhas conhecidos como "paraísos fiscais".

Um paraíso fiscal é um Estado em que a lei facilita a aplicação de capitais de origem desconhecida, protegendo a identidade dos proprietários desse dinheiro, ao garantirem o sigilo bancário absoluto. Em outras palavras, qualquer dinheiro é bem vindo, e não será feita nenhuma pergunta da procedência dos valores.

Se perguntassem numa conferência das Nações Unidas quem gostaria de ver o fim do terrorismo, das drogas, do tráfico ilegal de armamentos, da corrupção, até as cadeiras do salão levantariam os braços. Mas, se perguntarmos aos chefes de Estado se eles gostariam de acabar com os paraísos fiscais, ouviríamos uma orquestra de assobios e uma multidão de olhares furtivos procurando coisinhas pequenas pelo chão.

É hipocrisia e burrice política falar de guerra ao terrorismo, ao tráfico, desmatamento ilegal, prostituição infantil, trabalho escravo e toda sorte de ilegalidade sem propor uma ação urgente para terminar com a ação criminosa dos paraísos fiscais, que têm feito do mundo um verdadeiro Hades que caminha freneticamente para o fim.

Ruanda