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Dois olhos que vêem o mundo.

Dois olhos que vêem o mundo.

Olho o mundo com dois olhos; com o da direita enxergo mal . Ele é triste, vesgo e daltônico – contenta-se com cinzas. O mundo que vejo com meu olho direito é um triste pântano de onde ressoam gritos de crianças, prantos de velhos e lamentos de mães. Esse olho só capta os campos refugiados africanos, as covas rasas dos cemitérios, os becos imundos das cidades, os mísseis espatifando velhos e os cristãos abençoando a guerra. Ele é pessimista e contempla a vida como uma estrada sinuosa, sempre devolvendo os seus viajantes ao pó de onde vieram. Meu olho direito é míope. Não alcança muito longe; nada espera das ideologias e há muito se desiludiu com toda utopia – religiosa ou filosófica. Ele só espia por entre frestas, por isso, só permite que cheguem sombras ao coração. Não distingue Deus; apenas um imenso vazio provocado por sua ausência.

Já com o meu olho esquerdo, enxergo bem. Ele é multifacetado como o olhar dos insetos; fragmenta a luz e cria arco-íres em meu espírito. Observa o mundo como um prado de onde ressoam as mais belas sinfonias. Meu olho canhoto é otimista; acredita que as estrelas brilham porque são pequenos espelhos refletindo a beleza humana. Ele reconhece o Criador nos lábios do poeta quando lamenta; no canto do namorado quando serenata apaixonado; no riso da mãe quando afaga a filha que voltou. Nesse olho moram os Juazeiros eternamente verdes, os raros Uirapurus com suas orquestras sinfônicas e os relâmpagos acompanhados de seus estalos monumentais. Com ele, antevejo bois pastando ao lado das cobras; artesões transformando o ferro dos canhões em arados e Deus brincando de roda com as crianças no crepúsculo do dia.

Confesso que em vários momentos fechei um dos meus olhos. Permiti que minha fé azedasse ou amornasse e assim perdi a gesta heróica. Hoje quero dar-me ao mundo, sem o olhar implacável dos cínicos; desejo acreditar no amanhã sem o semblante crédulo dos ingênuos.

Abrirei os meus dois olhos e terei esperança. E minha esperança me salvará de mim mesmo. Reconheço que a vida acontece nesse espaço que fica entre os porões úmidos da desgraça e os palcos festivos da felicidade. É aí onde quero dar-me, nunca esquecendo de prantear com os que choram e rir com os que bailam.

Ricardo Gondim