15.3.08

Tereza Cristina




Minha pequena irmã,
meu anjo lindo que não vi,
mas sempre vejo nos poços da saudade.

Minha pequena,
as tuas flores que nunca vi,
ainda perfumam esta casa triste,
com suas pétalas eternas presas aos sapatos dos que choram em oculto.

O teu leito que não vi
está no mesmo lugar como deixaste,
quando os loiros fios descansavam no algodão
e os lábios frios não choravam mais.

Nos fundos poços posso ver as poucas luas,
que iluminaram a sua luta em noites mágicas;
Noites lindas, noites raras que mais brilhavam
por teus olhinhos chorosos que pelos tímidos luminares.

Cada gesto teu movia estas águas de esperança,
como a brisa ondula as vítreas águas de um lago negro e tranquilo.
Como um lago soterrado,
que não antes de ti, mas contigo
desceu ao funéreo leito gelado.

Não ouvi teu choro, mas ele ainda ecoa com notívagos soluços,
que ressoam nos prados da minh'alma e me levam pra junto de ti.
Não para junto de teu berço ou de tua cadeira,
mas seguro em tuas mãos corremos juntos por uma terra de perpétua alvorada.

Ah, quando eu te encontrar minha querida,
quero parar a eternidade para estar contigo,
para ver diretamente em teus olhos o esplendor que os poços refletem perenemente.
Quero secar os meus olhos na candura de tuas vestes e descansar no teu abraço.

Mas por hora só tenho esses prismas ébanos,
esses tristes olhos de nosso pai e de nossa mãe;
esses olhos que mais parecem poços sem fundo,
que olham para o horizonte plano sem fim,
uma parede vazia, onde dormias e não dormes mais.

Ah minha linda, naquele dia só será mais linda que você,
a ressurreição desses poços aterrados,
que brotarão como uma nascente nival,
e lavarão dessas rochas toda a angústia de uma vida inteira.

Ah, que doce reunião será,
uma certeza no olhar
que essa alegria não vai ter mais fim.
Até lá Tereza Cristina.

T.M.Vaz

Desenho: Camis (mais)

12.3.08

Céu de Berisso

Dois olhos que vêem o mundo.

Dois olhos que vêem o mundo.

Olho o mundo com dois olhos; com o da direita enxergo mal . Ele é triste, vesgo e daltônico – contenta-se com cinzas. O mundo que vejo com meu olho direito é um triste pântano de onde ressoam gritos de crianças, prantos de velhos e lamentos de mães. Esse olho só capta os campos refugiados africanos, as covas rasas dos cemitérios, os becos imundos das cidades, os mísseis espatifando velhos e os cristãos abençoando a guerra. Ele é pessimista e contempla a vida como uma estrada sinuosa, sempre devolvendo os seus viajantes ao pó de onde vieram. Meu olho direito é míope. Não alcança muito longe; nada espera das ideologias e há muito se desiludiu com toda utopia – religiosa ou filosófica. Ele só espia por entre frestas, por isso, só permite que cheguem sombras ao coração. Não distingue Deus; apenas um imenso vazio provocado por sua ausência.

Já com o meu olho esquerdo, enxergo bem. Ele é multifacetado como o olhar dos insetos; fragmenta a luz e cria arco-íres em meu espírito. Observa o mundo como um prado de onde ressoam as mais belas sinfonias. Meu olho canhoto é otimista; acredita que as estrelas brilham porque são pequenos espelhos refletindo a beleza humana. Ele reconhece o Criador nos lábios do poeta quando lamenta; no canto do namorado quando serenata apaixonado; no riso da mãe quando afaga a filha que voltou. Nesse olho moram os Juazeiros eternamente verdes, os raros Uirapurus com suas orquestras sinfônicas e os relâmpagos acompanhados de seus estalos monumentais. Com ele, antevejo bois pastando ao lado das cobras; artesões transformando o ferro dos canhões em arados e Deus brincando de roda com as crianças no crepúsculo do dia.

Confesso que em vários momentos fechei um dos meus olhos. Permiti que minha fé azedasse ou amornasse e assim perdi a gesta heróica. Hoje quero dar-me ao mundo, sem o olhar implacável dos cínicos; desejo acreditar no amanhã sem o semblante crédulo dos ingênuos.

Abrirei os meus dois olhos e terei esperança. E minha esperança me salvará de mim mesmo. Reconheço que a vida acontece nesse espaço que fica entre os porões úmidos da desgraça e os palcos festivos da felicidade. É aí onde quero dar-me, nunca esquecendo de prantear com os que choram e rir com os que bailam.

Ricardo Gondim