21.11.08

Escola Privada



Certa feita, perguntei para uma estudante de ensino médio qual era o conteúdo abordado atualmente por seu professor de matemática. Ela respondeu animadíssima:
-Ele está terminando o capítulo dos logaritmos. É bem fácil.
Perguntei desconfiado:
-Para que serve um logarítimo?
-Não sei. Não me interessa. "Para que serve" não cai no vestibular.

Esse pequeno diálogo ilustra exatamente para onde a educação privada no Brasil caminha. A grande tendência em educação particular no Brasil é a aderência das escolas aos sistemas de educação voltados para o vestibular.

"Objetivo", "Anglo", "Etapa", "COC", "Universitário", etc... venderam centenas de franquias nos últimos anos. Cada uma com suas apostilas "super atuais", exercícios dos últimos vestibulares e com seu método exclusivo que garante sucesso nos exames admissionais da universidades públicas. O livro didático conseguiu o prodígio de encontrar um substituto ainda pior do que ele! (Sobre o livro didático, falarei num próximo artigo).

A educação particular no Brasil está diante de seu maior paradoxo. Ou cede à lógica emburrecedora do vestibular, e oferece uma educação massificada e marcada pela alienação, ou proporciona uma reflexão interdisciplinar e perde boa parte de seus clientes.

A educação oferecida pelas principais empresas pré-vestibulares ganhou a classe média brasileira, que jura comprar o melhor pacote educacional para seus herdeiros. Não quero neste artigo discutir a eficiência desses sistemas, pois de fato eles fazem o que se comprometem a fazer: enfiam seus clientes nas universidades. O que questiono é a privação intelectual e educacional desses alunos.

O que é feito nestas empresas é o treino frenético para a resolução de alguns poucos tipos de exercícios no menor tempo possível. Não há reflexão. A memorização é uma prática comum e necessária. O espaço para o seminário e trabalhos em grupo foi suprimido pela aula expositiva do professor e pelo individualismo dos alunos, que não são mais amigos, mas sim concorrentes. O ensino desses grandes sistemas visa preparar o aluno-cliente para uma única prova. O fato ignorado é que existe vida após o vestibular.

Além disso, não há espaço para discussão sobre os problemas políticos, ambientais, e sociais da comunidade na qual o aluno está inserido. Tudo é muito global e genérico. Tudo que deve ser explorado pela turma está na apostila, que por sinal é a mesma para o aluno da Av.Paulista e para o aluno da pequena cidade do interior. Democrático, não acha?!

O sistema não prevê a formação moral e profissional dos alunos. Afinal, ética não cai no vestibular. Com certeza os problemas do dia-a-dia do futuro profissional não se resumirão a pequenas questões totalmente desconexas entre si, com as respectivas soluções encontradas a partir da aplicação de uma simples fórmula, que ele pode decorar com uma musiquinha ou frase erótica.

A escola deve ditar como deve ser o vestibular, mas o que aconteceu nos últimos anos foi o contrário. A escola se adaptou ao vestibular.

Quando ouvi essa música pela primeira vez, há mais de uma década e meia atrás, ela não fazia tanto sentido como agora. Bem profetizou o Pensador:
"(...)
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Decoreba: esse é o método de ensino
Eles me tratam como ameba e assim eu não raciocino
Não aprendo as causas e conseqüências só decoro os fatos
Desse jeito até história fica chato
(...)
Então eu vou passar de ano
Não tenho outra saída
Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida
Discutindo e ensinando os problemas atuais
E não me dando as mesmas aulas que eles deram pros meus pais
Com matérias das quais eles não lembram mais nada
E quando eu tiro dez é sempre a mesma palhaçada

Refrão

Encarem as crianças com mais seriedade
Pois na escola é onde formamos nossa personalidade
Vocês tratam a educação como um negócio onde a ganância, a exploração, e a indiferença são sócios
Quem devia lucrar só é prejudicado
Assim vocês vão criar uma geração de revoltados
Tá tudo errado e eu já tou de saco cheio
Agora me dá minha bola e deixa eu ir embora pro recreio...

Juquinha você tá falando demais assim eu vou ter que lhe deixar sem recreio!
Mas é só a verdade professora!
Eu sei, mas colabora se não eu perco o meu emprego."
Estudo Errado-Gabriel, o Pensador.

Boa sorte aos vestibulandos que prestarão a prova da Fuvest nesse final de semana! (Agora não estou ironizando!)

T.M.Vaz

5.10.08

Boca de Urna e Sujeira em Taboão!

2008 não foi diferente. Como sempre acontece na pequena caixa de marimbondos, as eleições foram marcadas pelo desrespeito com a cidade, com as leis e com a população, sobretudo com a população dos bairros periféricos.


Jardim Maria Helena

Carros de som castigaram a periferia com paródias infames e jingos dignos dos candidatos de 2008. As "músicas" martelaram dia e noite rimas compostas com os números e nomes dos candidatos. Não houve debate ou propostas políticas.


Rua do Pronto Socorro do Antena

Hoje, 5 de Outubro, dia da votação, só não viu quem não quis a famosa bocas-de-urna. Nas portas e nos arredores das escolas onde ocorreram as votações, foram panfletados "santinhos" que emporcalharam a cidade inteira. A "Prática vedada pela Lei Eleitoral e conceituada como crime, punível com pena de detenção de seis meses a um ano (art; 39, §5º, I e II, L. 9.504/97) e mais multa de 5.000 a 15.000 UFIR. Consiste em fazer propaganda eleitoral no dia da eleição pelo uso de alto falante e amplificadores de som, promoção de comícios ou carreatas, além da distribuição de material de propaganda política, inclusive volantes e outros impressos, bem como pela prática de aliciamento, coação ou qualquer manifestação tendente a influir na vontade do eleitor."

Jardim São Judas

Pode-se inferir qual é a índole destes senhores(as). Nem foram eleitos e já ignoram a lei e a ordem. Já dá pra ter uma idéia de antemão como será a administração da verba e do poder público nos próximos quatro anos.


Rua do Fórum

Fiz questão de blogar este artigo após o fechamento das urnas. Em apenas 15 minutos registrei com um amigo a sujeira lançada em cinco bairros. Se eles sujaram a cidade desta forma para todo mundo ver, imagine a sujeira sob os tapetes das secretarias, câmara e prefeitura.


Jardim Salete

Fotografias de Jorge Daniel



T.M.Vaz

22.9.08

Física y Humildad



"Bienaventurados los humildes de espíritu, porque de ellos es el reino de
los cielos;" (Mateo 5:3)
Es innegable que nosotros, estudiantes de Física, tengamos un
conocimiento muy basto acerca del Universo. Desde las pequeñas
partículas a los limites de las galaxias más distantes. El Cosmos,
principalmente, es revelado a pasos agigantados a esa minoría
privilegiada.

También es innegable que ese conocimiento acerca del Cosmos causa
impresiones diferentes en cada persona. El causa tanto deslumbramiento y
humildad, cuanto arrogancia e intolerancia. Ese nuevo saber acerca del
Universo nos instiga a repensar nuestro lugar en el mismo.

Una visión más detallada de la inmensidad y complejidad del Universo
material que causa, en una parte de los físicos, es la sensación de que el
hombre es frágil y de vida pasajera. Blaise Pascal declaró:
“¿Qué es el hombre en la naturaleza? Un nada en relación al infinito, un
todo en relación al nada, un punto entre el nada y el todo” y “Cuando
considero la duración mínima de mi vida, absorbida por la eternidad
precedente y siguiente, el espacio diminuto que ocupo, y aún lo que veo,
abismado en la infinita inmensidad de los espacios que ignoro y me
ignoran, me asusto y me asombro al verme aquí y no allá. ¿Quién me puso
aquí? ¿Por orden de quién me fue destinado este lugar y este espacio?”

A pesar de que vivimos un momento único y sin precedentes en la historia
del conocimiento físico, tenemos una infinidad de cosas a descubrir. Sobre
eso Newton afirmó:
“No se lo que pueda parecer a los ojos del mundo, mas a los míos parezco
apenas haber sido como un niño jugando en la arena de la playa,
divirtiéndome con el hecho de encontrar de vez en cuando
un fragmento de piedra más liso o una concha más bonita que lo normal,
en cuanto el gran océano de la verdad permanece completamente para ser
descubierto delante de mí” y “lo que sabemos es una gota; lo que
ignoramos es un océano.”

¡La afirmación de Jesús “Felices son los humildes (o pobres) de espíritu...”
como eco a través de los milenios llega al siglo XXI más que actual! De
entre las virtudes exaltadas por Jesús, la humildad es la más mal
interpretada. Votos de pobreza extrema y repudio a la academia son
ejemplos que ilustran bien la tentativa de alcanzar la humildad tan
estimada otrora.

Sin embargo, humildad no é considerarse inferior, miserable o cosas de
ese tipo, mas es considerarse del tamaño que de hecho somos. Es la lente
con la cual el individuo se ve a si mismo y a su prójimo. Es la capacidad de
ver al prójimo (y verse), sea él quien sea, en pié de igualdad. Sea rico o
pobre, viejo o joven, culto o sin estudio algún, creyente o cético, somos
exactamente iguales.

Humildad es reconocer que somos pasajeros. Por más poder o fama que
se pueda alcanzar, seremos llevados como polvo al viento, siendo así
olvidados completamente. Es decir como Pascal que “La grandeza de una
persona está en saber reconocer su propia pequeñez.” Es vivir con
sencillez, sin aspiraciones egoístas y exacerbadas. Es darse al mundo por
entero. Es apasionarse por la rutina diminuta. Es ver la belleza profunda en
un cielo casi sin estrellas y sentirse agradecido por la existencia que se
evapora rápidamente en dirección al reino de los cielos.

T.M.Vaz
A tradução foi uma cortesia de um grande amigo!

20.9.08

Carta aberta aos Pajés Taboanenses



Já que os títulos desses senhores são variados (pastores, bispos, apóstolos, profetas, ... ), resolvi condensar todo esse pandemônio em um único substantivo: "Pajés".

Desde já peço perdão a comunidade indígena por comparar seus guias tão dedicados aos pérfidos encastelados desta selva de tijolos-baianos. Sou um infeliz nesta comparação, pois ofendo unicamente a cultura indígena. Mas esta corja de minha cidade é tão parva que certamente entenderá como ofensivo o elogio feito a ela. Que seja então.

O apelido surge do seguinte: As religiões tribais da América, não têm literatura que dite os fundamentos de seu credo e organização social. Essas tribos são guiadas por suas tradições, transmitidas de geração em geração. São os tais pajés que orientam toda a vida social das tribos. A sociedade não pensa por si só, mas segue os preceitos de seu líder místico.

Da mesma forma, uma fatia considerável dos cristãos de Taboão não tem pensamento próprio há muito tempo. O clero fétido dessa pequena cidade tem abusado da suposta autoridade que ele diz ter. Com o pretexto de alcançar interesses do Reino, influencia seus membros a votarem em seus indicados.

Por favor, não pensem que quero o vosso mal. Venho apenas registrar que não tenho parte convosco nesta vossa pajelança. Escrevo unicamente para denunciar o voto de cabresto promovido por vocês, "pajés". Deliberadamente, venderam o voto de suas comunidades em troca de poder político, aparatos musicais, equipamentos de som, espaços públicos para eventos, etc...

Apesar de repudiar esse abuso típico de vocês, quero dar os parabéns pela organização do esquema que evoluiu muito nos últimos anos. Conseguiram formar uma liga de patetas desocupados, que sobre o domínio de dois ou três pajesões, lançaram marionetes próprias, além de adentrarem a prefeitura e a câmara para cafés e orações. Conquistaram o prestígio e o favor da máfia que escandalizou o país com seus secretários fantasmas. Parabéns!

Entretanto, quero lembrá-los que as marionetes colocadas pelas igrejas em cargos legislativos, assim que colocam os pés na câmara, acabam virando marionetes dos outros coronéis. É só lembrar do maior escândalo político entre evangélicos de todos os tempos. O nomeado escândalo das "Sangue-Sugas" envolveu boa parte da "cambada evangélica" na mutreta do Ministério da Saúde. Além de pleitearem pela aprovação de canais de TV para os grandes impérios eclesiásticos, lutarem contra a causa homossexual e contra as pesquisas com células-tronco, os crentes de Brasília participaram do desvio de dinheiro de ambulâncias superfaturadas.

Se Taboão da Serra não resume o que acontece em todo o mundo cristão, pelo menos o que aconteceu no Brasil e nos EUA na última década encontra paralelos claríssimos nesta caixa de marimbondos de 20 km², onde os salários dos vereadores são maiores que mais da metade dos salários dos prefeitos do Estado de São Paulo, e que o salário do prefeito ultrapassa o salário de grande parte dos governadores de Estado dessa nação de poucos pajés, e muitas filas de gente sem esperança.



T.M.Vaz

6.9.08

Carta Aberta à Jorge Daniel


Caro Hermano, depois de alguns anos de amizade sincera, companheirismo e parceria em muitos sonhos, quero te agradecer publicamente pelo apoio, pelos muitos "cuidados" que pautaram meus passos mais difíceis e por ser um ouvinte de infinita paciência.

Estamos navegando em muitos barcos em comum, e por isso me identifico e me solidarizo contigo em várias situações. Me solidarizo com a sua dificuldade no curso de Física. Admito, não levo jeito para a coisa. Não tenho vontade de estudar certos assuntos da Física, não pelo conteúdo, pois sabemos que ambos somos fascinados com o Universo material, mas pela forma que os conteúdos são cobrados e ministrados. Além do mais, são poucos que conseguem trabalhar, preparar aulas, corrigir atividades, e ainda se dedicarem à Física. Mas peço que não desanime. Deus ordenou ao homem acerca de sua criação: "-Domine!" Fomos colocados sobre todas as obras do Criador, e Ele mesmo nos deu entendimento e poder sobre todas as coisas. Leve o tempo que for, concluiremos esse curso, com o louvor e admiração dos verdadeiros amigos. Os que debocham, na verdade invejam outras facetas das nossas vidas!

Também me identifico com a tua sensibilidade emocional. Já te vi chorar por pessoas que nem conheces diversas vezes. Já ouvi suas preocupações com gente que não faz parte do seu universo pessoal e já testemunhei sua alegria ao servir meia dúzia de esquecidos nas ruas de São Paulo. Saiba que o amor é o dom supremo e a marca dos que ressurgirão das cinzas para um mundo muito diferente.

Sei que você se sente deslocado no mundo. Acalme-se. O mundo não aprecia o filho que ama, respeita e admira os pais acima de tudo. O mundo não honra os que pensam mais nos outros do que em si mesmos. O mundo não entende àquele que abre mão de prazeres e regalias por causa de seus ideais. Alias, o mundo não tolera quem tem ideais. Que o seu desconforto com essas situações aumentem a cada dia. Não se deixe levar pelas correntezas da "normalidade", pois o fim delas é a grande cachoeira do esquecimento.

Mais uma vez agradeço pelas muitas vezes que abriste os portões do Monastério de Santo Chaves para esse pobre mascate entrar e fugir dos salteadores, beber água e lavar os pés. Na verdade, muitas vezes ele entrou apenas para ouvir o canto dos enclausurados e os sinos fúnebres do adeus.

Quanto ao mais, o tempo e o vento colocarão cada duna no seu devido lugar.

Obs: Parabéns pelo novo Blog.Tenho certeza que não há material online, em portueguês, e gratuíto, para o ensino a distância de Hebraíco Bíblico com a qualidade do Ivrit.

10.8.08

Física e Humildade


Tela de Luana Santana

"Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus;" (Mateus 5:3)

É inegável que nós, estudantes de Física, possuímos um conhecimento muito acima da média acerca do Universo. Das menores partículas aos limites das galáxias mais distantes, o Cosmo é revelado a passos largos a essa minoria privilegiada.

Também é inegável que esse conhecimento do Cosmo causa impressões diferentes em cada pessoa. Ele tanto causa deslumbramento e humildade, quanto arrogância e intolerância. Esse novo saber acerca do Universo nos instiga a repensarmos o nosso lugar no mesmo.

Uma visão mais detalhada da imensidão e complexidade do Universo material causa, numa parte dos físicos, a sensação de fragilidade e efemeridade. Blaise Pascal declarou:


“O que é o homem na natureza? Um nada em relação ao infinito, um tudo em relação ao nada, um ponto entre nada e tudo” e “Quando considero a duração mínima da minha vida, absorvida pela eternidade precedente e seguinte, o espaço diminuto que ocupo, e mesmo o que vejo, abismado na infinita imensidade dos espaços que ignoro e me ignoram, assusto-me e assombro-me de me ver aqui e não lá. Quem me pôs aqui? Por ordem de quem me foram destinados este lugar e este espaço?”


Apesar de vivermos um momento único e sem precedentes na história do conhecimento físico, temos uma infinidade de coisas a descobrir. Sobre isso Newton afirmou:


“Não sei o que possa parecer aos olhos do mundo, mas aos meus pareço apenas ter sido como um menino brincando à beira-mar, divertindo-me com o fato de encontrar de vez em quando um seixo mais liso ou uma concha mais bonita que o normal, enquanto o grande oceano da verdade permanece completamente por descobrir à minha frente” e “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano.”


A afirmação de Jesus “Felizes são os humildes (ou pobres) de espírito...” ecoa pelos milênios e chega ao século XXI mais que atual! Dentre as virtudes exaltadas por Jesus, a humidade é a mais mal interpretada. Votos de pobreza extrema e repúdio à academia são exemplos que ilustram bem a tentativa de alcançar a humildade tão estimada outrora.

Contudo, humildade não é considerar-se inferior, miserável ou coisas do tipo, mas é considerar-se do tamanho que de fato se é. É a lente com a qual o indivíduo vê a si mesmo e a seu próximo. É a capacidade de ver o próximo (e se ver no próximo), seja ele quem for, em pé de igualdade. Seja rico ou pobre, velho ou jovem, culto ou sem estudo algum, crédulo ou cético, somos exatamente iguais.


Humildade é reconhecer que somos passageiros. Por mais poder ou fama que se possa alcançar, seremos levados como pó ao vento, sendo assim esquecidos completamente. É dizer como Pascal que “A grandeza de uma pessoa está em saber reconhecer sua própria pequenez.” É viver com singeleza, sem aspirações egoístas e exacerbadas. É dar-se ao mundo por inteiro. É apaixonar-se pelo rotineiro diminuto. É ver a beleza profunda num céu quase sem estrelas e sentir-se grato pela existência que se evapora rapidamente em direção ao reino dos céus.


T.M.Vaz

9.7.08

Vida em Vênus?

É conhecido desde os tempos pré-históricos. Ele é o mais brilhante objeto no céu exceto pelo Sol e pela Lua.

Ele faz parte dos planetas inferiores (Mercúrio, Vênus Terra e Marte). Durante 4 bilhões de anos os planetas inferiores acumularam fragmentos interestadual tornando-se corpos rochosos. É o planeta mais próximo à Terra com distância mínima de 42 milhões de km.

Regularidades e Gravidade
Vênus é o segundo planeta desde o Sol e o sexto maior. Seu tamanho, massa, densidade e, conseqüentemente, sua gravidade, são praticamente iguais as da Terra. O interior de Vênus é provavelmente muito parecido com o da Terra: um núcleo de ferro de aproximadamente 3.000 km de raio, um manto de rocha derretida englobando a maior parte do planeta. Devido a essas semelhanças, Vênus foi considerado por muitas décadas como planeta gêmeo da Terra.

Durante décadas os cientistas acreditaram que Vênus tivesse oceanos, florestas exuberantes e clima semelhante ao da Terra, de modo a proporcionar que as condições fossem favoráveis para o surgimento de vida inteligente. Essas idéias duraram até a era espacial, quando descobriu-se que as condições climáticas de Vênus eram muito diferentes às da Terra.

Vênus recebeu muitos impactos de meteoros. Estudos mostram que um desses impactos foi tão forte que reverteu a rotação de Vênus. A rotação é retrógrada e muito lenta. Um dia em Vênus equivale a oito meses terrestres. Um ano venusiano equivale a 225 dias terrestres, o que faz com que, estranhamente, um dia em Vênus dure mais que um ano. A órbita de Vênus é mais próxima de circular de todos os planetas, com uma excentricidade de menos que 1%.

A gravidade em Vênus, permitiria perfeitamente a manutenção de vida inteligente. Um ser humano, após viver décadas na Terra, não perceberia nenhuma diferença gravitacional ao colocar os pés em Vênus. Não sofreria aquele efeito de flutuação sofrido pelos astronautas que pisaram na Lua.

Contudo, seu movimento de rotação extremamente lento, faz com que uma dada região da superfície venusiana receba luz solar por 4 meses, e posteriormente permaneça sem receber nenhuma luz por mais 4 meses. Isso impossibilitaria a manutenção da vida vegetal como a conhecemos, que necessita de luz solar para fazer fotossíntese, processo esse que produz alimento e gás oxigênio para planta e os demais seres vivos do ambiente.



Água

Embora a pressão atmosférica de Vênus seja favorável a presença de água, as grandes temperaturas evaporaram toda a água do planeta, de modo que sua atmosfera seja 0,1 de vapor d'água. Existem algumas evidências que em outrora o planeta tenha sido coberto por oceanos. Enquanto a Terra tem cinco grandes porções de elevações terrestres, que constituem os continentes, Vênus tem apenas duas grandes elevações.
A escassez de água em Vênus é um fator suficiente para que não haja vida neste planeta. Mas é importante ressaltar que essa escassez é consequência de um fator mais grave: A temperatura.

Temperatura
A temperatura em Vênus é "infernal". A temperatura na superfície chega à 480°C, tornando Vênus o planeta mais quente do Sistema Solar. Essa temperatura é ocasionada pelo Efeito Estufa.
Esta atmosfera densa produz um efeito estufa que eleva a temperatura da superfície em cerca de 400 graus. A superfície de Vênus é atualmente mais quente que a de Mercúrio apesar de estar duas vezes mais longe do Sol.
A temperatura altíssima é fator insuficiente para a manutenção da vida como a conhecemos. Um ser humano sem traje especial morreria em segundos na superfície venusiana. Além dos fatores diretos, há ainda os indiretos como a evaporação de toda a água do planeta.
Entretanto, as altas temperaturas são decorrência de um outro fator: A atmosfera.

Atmosfera e Radiação
O maior responsável pela ausência de vida em Vênus é sua atmosfera.
A pressão atmosférica dele na superfície é de 90 vezes superior a pressão atmosférica na superfície terrestre (uma pressão equivalente a uma profundidade de um quilômetro abaixo do nível do mar na Terra). Em Vênus, um ser humano teria os ouvidos estourados, os pulmões se rasgariam como que inflados por um compressor e a morte seria instantânea.
Além da pressão, a atmosfera de Vênus é inadequada para a vida devido sua composição. Composta por 96% de dióxido de carbono, 3,5% de Nitrogênio e 0,5% de Monóxido de Carbono, Argônio, Dióxido de enxofre e Vapor de água. Repare que não há oxigênio. Mas a ausência de oxigênio não é o único fator impróprio para vida no planeta, mas a alta concentração de dióxido de carbono promove o aquecimento do planeta e impede a entrada de radiação solar.
O mesmo Efeito Estufa que proporciona condições favoráveis à vida na Terra, é o que impossibilita a vida em Vênus. Foi o estudo de Vênus que nos possibilitou o entender o Aquecimento Global na Terra. Ele é causado pelos Gases do Efeito Estufa. Os gases atmosféricos retêm o calor da radiação solar. Por que Vênus é tão quente? Por causa da sua composição atmosférica. Por isso Vênus é tão quente!
Vênus tem muito mais vulcões ativos que a Terra, o que resultou em uma emissão de dióxido de carbono muito grande. Em Vênus, os vulcões são a fonte natural de dióxido de carbono e outros gases. O gás é liberado por causa do calor das rochas fundida (o magma).
Como já foi mencionado, a atmosfera de Vênus é a grande causadora da maioria dos fatores que impedem a vida em Vênus. Ela causa o aquecimento, que não permite a presença de água no estado líquido, não permite a entrada de luz solar para a fotossíntese, além da alta concentração de gases venenosos e a escassez de gás oxigênio.

T.M.Vaz

1.5.08

Espiritualidade (parte 3)

Felicidade é Sofrimento!





Talvez, a maior virtude dessa proposta de espiritualidade seja a capacidade de sofrer. Ao contrário de algumas proposições acerca deste assunto, não entendo que uma pessoa que desenvolveu sua espiritualidade não experimente a dor em seu cotidiano. Ao contrário. A dor é a base da construção dessa proposta.

O médico e escritor inglês Paul Brand, em seu livro “a Dádiva da Dor”, explica que a hanseníase é a perca da capacidade de sentir dor. O leproso pisa de forma inadequada, o que com o passar do tempo faz com que ele perca os dedos dos pés. Sem perceber, o doente coça o rosto até ferir a pele. A hanseníase não causa as chagas como se pensava antigamente. É o próprio leproso que machuca a si mesmo.

Da mesma forma, o mundo se alto destrói porque perdeu a capacidade de sofrer. Hoje em dia, grande parte das pessoas vaga pelas megalópoles sem se dar conta da multidão que está a padecer ao seu redor. São milhares de crianças que tiveram seus sonhos destroçados pelas drogas, violência e pelo abuso sexual. Os anônimos invisíveis, alcoolizados e famintos, esquecidos nas calçadas e nos becos imundos da cidade. Não sentimos mais nada. Estamos espiritualmente leprosos.

Me questiono as vezes se o conceito de “próximo” mudou com o passar do tempo. Máximas milenares como “amar ao próximo” têm outro sentido no mundo global? No decorrer da última ocupação dos EUA no Iraque, foi veiculada na imprensa mundial a foto de uma criança iraquiana que, durante uma ação militar, teve uma de suas pernas amputada por um tiro de fuzil enquanto andava de bicicleta. O mundo foi impactado com a face mais cruel da guerra.

Aquele menino é meu próximo? O conceito de proximidade está ligado exclusivamente a questões geográficas? Muitas pessoas no mundo todo ficaram momentaneamente chocadas com as imagens do menino iraquiano. Mas, muitas dessas pessoas não se chocam mais com as atrocidades que ocorrem em suas próprias cidades. Ficamos estupefatos com fatos fora do nosso universo cotidiano, mas nos acostumamos (desumanizamos) facilmente com os fatos que viraram rotina em nossa realidade. Assistimos os jornais como quem vê uma novela irreal. Os números das vítimas da violência, a miséria, as enchentes e deslizamentos de terras não mexem mais conosco. Ficamos endurecidos.

Penso que a dor é natural e inevitável aos animais. Contudo, sentir a dor do próximo é algo inerente ao espírito humano. Vivemos a desumanização da humanidade, ao passo que não sentimos mais a dor do próximo.

A vida que escolhemos para viver neste século nos impõem um novo rítmo. É preciso trabalhar, estudar, cuidar da saúde e da estética, consumir, etc. Não há tempo para os outros. Na verdade não há muito tempo nem para nós mesmos. Cada vez dormimos e sonhamos menos. Nos encastelamos no egocentrismo exacerbado.

A maior miséria é a falta de humanidade. E tenho a impressão que quanto mais riqueza acumulamos, mais alienados estamos da realidade do mundo. Não quero apelar para a devastação da África pelo HIV, fome, guerras e malária. Quero pensar primeiramente nas pessoas que compõem efetivamente meu universo pessoal.

Se me perguntarem o que é egoísmo, responderei que é ter apenas um coração a pulsar no peito. Felicidade é sentir a angústia dos desconhecidos, ouvir a voz dos insuportáveis e chorar com os que já perderam a motivação para viver.

Para ter esta percepção, é preciso primeiro desacelerar o passo. É necessário olhar as pessoas nos olhos com a alma polida, para ver o outro em si mesmo. Se você leu este texto até o fim, provavelmente está no caminho certo.

Perdoe o meu tom confessional.

T.M.Vaz

11.4.08

Red Fruits



Conheça os trabalhos da Camis.

Espiritualidade (parte 2)


Como o leitor pôde perceber na primeira parte desta série, proponho uma espiritualidade pouco convencional. Mas a questão que quero levantar neste artigo é o motivo que leva alguém a desejar desenvolver qualquer espiritualidade. Além disso, vou demonstrar neste artigo as razões pelas quais penso ser fundamental o exercício da espiritualidade.

A princípio, penso que muitas pessoas no decorrer da história desenvolveram uma espiritualidade hereditária, baseada apenas nas tradições de seus pais. Sociedades tribais, culturas orientais, povos antigos e outros grupos não tiveram muitas opções no que diz respeito ao pensamento religioso. O homem vê deus pelo mesmo prisma de seus pais e professores. Você já parou para pensar no seguinte: Se você tivesse nascido numa outra cultura, em outra época, num contexto religioso totalmente adverso ao teu, será que você teria as mesmas convicções religiosas e filosóficas? A maioria de nós nunca parou para pensar o quanto nossa cultura nos influenciou para que fossemos quem nós somos.

Além dessa hereditariedade, penso que outro fator fortíssimo para a propagação do pensamento religioso foi o proselitismo. O marketing religioso é um grande negócio hoje, mas não é uma prática nova. Ele já foi feito através de guerras, como nas Cruzadas, onde os sobreviventes entre os perdedores eram obrigados a se converterem a religião do vencedores. A propaganda das diversas crenças também foi feita através do ensino religioso nas escolas e universidades, da capelania em hospitais e presídios, e hoje em dia é feita sobretudo através da mídia. A crença é propagada nas telas e monitores ao lado dos partidos políticos e dos mais variados produtos de consumo.

Contudo, acredito que apesar da herança cultural e do proselitismo, há um fator que sobrepõem os anteriores: A necessidade humana de transcender a existência finita e material. É essa avidez do coração humano que faz com que o hereditarismo religioso e o proselitismo sejam tão eficientes. Me parece que o homem sempre soube que ele não se limita a um organismo biológico absurdamente complexo. Ainda que não admitamos, no fundo nós sabemos que somos algo além da carcaça física. E além disso, no íntimo sabemos que temos uma razão de existir. Essas percepções estão tão latentes nos últimos tempos que a população mundial está perto de um colapso psicológico em busca de respostas e conforto emocional.

Os templos religiosos estão abarrotados. Os livros místicos e religiosos são os mais vendidos há décadas. Peregrinações, movimentos, rituais, filosofias, e sacrifícios. Tudo está em alta e não somos hoje menos místicos do que já fomos no passado. Estamos apalpando no escuro, numa tentativa desesperada de encontrarmos algo firme e seguro para nos agarrarmos.

Entretanto, penso que toda essa sede pode ser e tem sido desastrosa. Nesse vale-tudo religioso, muitos tem perdido os sonhos, o tempo, a personalidade, os bens e a saúde. É de extrema necessidade uma espiritualidade verdadeira e sadia. Não porque precisamos de um deus ou um guia, mas porque precisamos de nós mesmo. Proponho uma espiritualidade que tenha uma razão de ser que vá além da tradição familiar, ou porque determinado marqueteiro religioso apresentou primeiro ou mais convincentemente seus dogmas.

Entendo que durante os milênios, a cultura deformou o caráter humano, matou a naturalidade e enjaulou a alma humana dentro de sistemas regidos por horários, dinheiro e leis arbitrárias. Não conseguimos mais ver a beleza humana nos olhos de uma criança. Estamos trocando a magnitude da natureza por um luxo efêmero que não nos satisfará em poucos anos. Escravizamos e exploramos nosso semelhante em nome da ganância. Se a humanidade se olhar no espelho, verá um cadáver sendo vorazmente consumido por seus próprios vermes.

Proponho uma espiritualidade que resgata nossa humanidade. Não quero ser mais espiritual. Antes quero ser mais humano.

9.4.08

Espiritualidade (parte 1)


Este artigo inicia uma série de 20 reflexões onde tentarei expor idéias sobre uma espiritualidade sadia e verdadeira.

De início já declaro que não vou recitar a cartilha teológica de religião ou filosofia alguma. Eu tenho minhas convicções pessoais, mas quero pensar numa outra espiritualidade. Uma espiritualidade intuitiva e ao alcance de qualquer pessoa.

Quero propor uma espiritualidade que vai na contra mão do modelo vigente, se é que existe um modelo nesse panteão. Este modelo não visa o esvaziamento da mente, mas sim a reflexão. Não aprecia o isolamento, mas exalta a convivência como praxis suprema. Ele não massageia o próprio ego ou conciência com ações exteriores, mas busca a naturalidade, e sempre que possível, o anonimato.

Como esta proposta é intuitiva, quero começar a pensar livremente nos valores fundamentais. Para facilitar, vou enumera-los, porém não creio que estes sejam divisíveis ou sistematizáveis.

Proponho uma espiritualidade que enxergue o ser humano como a razão de ser das leis universais.

Penso no certo e no errado como valores universais e não culturais. A violência e a mentira por exemplo, independentemente da sociedade ou época, sempre foram e serão práticas erradas. Contudo, penso que estas leis universais foram estabelecidas para o homem e não o contrário. Não posso concordar com qualquer que seja a fonte sagrada que tenha suas leis acima da dignidade humana. Sistemas em que o transgressor ou apóstata deve ser punido com a morte não se encaixam nesta proposta.

Um exemplo clássico onde a religiosidade sobrepõem a vida humana são as piras na Índia. A cultura milenar de algumas castas ensina que quando um homem morre, é mister queimar todos os bens desse indivíduo, inclusive sua esposa. Milhares de mulheres foram queimadas vivas em nome de uma lei sagrada.

Esta proposta rejeita qualquer ato político, religioso ou ideológico que, para alcançar um bem maior ou a excelência de alguma forma, proponha qualquer tipo de violência, exclusão, secção, ou diminuição do humano. Portanto, essa cosmovisão não pode conceber a guerra santa, o holocausto, sacrifícios humanos, desvalorização da mulher ou da criança, menosprezo aos frágeis ou desdém aos velhos.

É fácil exemplificar esse conceito, que a primeira vista pode parecer anárquico. Quem nunca disse a celebre frase: "quem não tem pecado atire a primeira pedra"? Este relato retrata exatamente este primeiro valor. Uma mulher transgrediu as leis sagradas de sua cultura, e essa lei ordenava que tal mulher fosse apedrejada. Os religiosos de plantão rapidamente se aprontaram para executar a sentença, mas um raboni que pensava um muito a frente de seus contemporâneos, conseguiu ver que a vida daquela mulher era mais importante que a lei que a condenava. Ele conseguiu ver que a lei fora feita para a mulher e não a mulher para a lei.

A espiritualidade que proponho começa afirmando que a vida humana deve ser o principal alvo de todo preceito sagrado. O sagrado é o humano.

Infernos Fiscais

Já se perguntou onde Osama Bin Laden guardou os milhões investidos nos ataques de 2001? Como ele movimentou o dinheiro que financiou todo o plano terrorista? Após os ataques de 11 de Setembro os EUA, mesmo sem o consenso da ONU, invadiu o Afeganistão, numa ação que eles denominarão "Guerra contra o Terror".

Se fala muito de guerra contra o tráfico de armas e o tráfico de drogas no mundo inteiro. Mas você acredita mesmo que o dinheiro do tráfico é guardado embaixo do colchão? Os traficantes comandam guerrilhas urbanas em todo o terceiro mundo, e compram serviços de telefonia e telecomunicações, traficam influência, corrompem autoridades, compram veículos, passagens aéreas, propriedades imobiliárias entre muitas outras coisas. Mas como eles movimentam tanto dinheiro? Será em maletinhas pretas do tipo dos filmes da máfia?

No Brasil, semanalmente aparece um novo casa de corrupção milionária. Juízes, senadores, deputados, prefeitos, delegados, coronéis, governadores, empreiteiras, esquemas de licitações fraudulentas, desvio de verbas de creches e escolas... Contudo, uma fatia substancial do dinheiro geralmente não é localizado. Porém, quando é localizado, ouvimos falar daqueles pequenos países, monarquias, estados independentes, ilhas conhecidos como "paraísos fiscais".

Um paraíso fiscal é um Estado em que a lei facilita a aplicação de capitais de origem desconhecida, protegendo a identidade dos proprietários desse dinheiro, ao garantirem o sigilo bancário absoluto. Em outras palavras, qualquer dinheiro é bem vindo, e não será feita nenhuma pergunta da procedência dos valores.

Se perguntassem numa conferência das Nações Unidas quem gostaria de ver o fim do terrorismo, das drogas, do tráfico ilegal de armamentos, da corrupção, até as cadeiras do salão levantariam os braços. Mas, se perguntarmos aos chefes de Estado se eles gostariam de acabar com os paraísos fiscais, ouviríamos uma orquestra de assobios e uma multidão de olhares furtivos procurando coisinhas pequenas pelo chão.

É hipocrisia e burrice política falar de guerra ao terrorismo, ao tráfico, desmatamento ilegal, prostituição infantil, trabalho escravo e toda sorte de ilegalidade sem propor uma ação urgente para terminar com a ação criminosa dos paraísos fiscais, que têm feito do mundo um verdadeiro Hades que caminha freneticamente para o fim.

Ruanda

15.3.08

Tereza Cristina




Minha pequena irmã,
meu anjo lindo que não vi,
mas sempre vejo nos poços da saudade.

Minha pequena,
as tuas flores que nunca vi,
ainda perfumam esta casa triste,
com suas pétalas eternas presas aos sapatos dos que choram em oculto.

O teu leito que não vi
está no mesmo lugar como deixaste,
quando os loiros fios descansavam no algodão
e os lábios frios não choravam mais.

Nos fundos poços posso ver as poucas luas,
que iluminaram a sua luta em noites mágicas;
Noites lindas, noites raras que mais brilhavam
por teus olhinhos chorosos que pelos tímidos luminares.

Cada gesto teu movia estas águas de esperança,
como a brisa ondula as vítreas águas de um lago negro e tranquilo.
Como um lago soterrado,
que não antes de ti, mas contigo
desceu ao funéreo leito gelado.

Não ouvi teu choro, mas ele ainda ecoa com notívagos soluços,
que ressoam nos prados da minh'alma e me levam pra junto de ti.
Não para junto de teu berço ou de tua cadeira,
mas seguro em tuas mãos corremos juntos por uma terra de perpétua alvorada.

Ah, quando eu te encontrar minha querida,
quero parar a eternidade para estar contigo,
para ver diretamente em teus olhos o esplendor que os poços refletem perenemente.
Quero secar os meus olhos na candura de tuas vestes e descansar no teu abraço.

Mas por hora só tenho esses prismas ébanos,
esses tristes olhos de nosso pai e de nossa mãe;
esses olhos que mais parecem poços sem fundo,
que olham para o horizonte plano sem fim,
uma parede vazia, onde dormias e não dormes mais.

Ah minha linda, naquele dia só será mais linda que você,
a ressurreição desses poços aterrados,
que brotarão como uma nascente nival,
e lavarão dessas rochas toda a angústia de uma vida inteira.

Ah, que doce reunião será,
uma certeza no olhar
que essa alegria não vai ter mais fim.
Até lá Tereza Cristina.

T.M.Vaz

Desenho: Camis (mais)

12.3.08

Céu de Berisso

Dois olhos que vêem o mundo.

Dois olhos que vêem o mundo.

Olho o mundo com dois olhos; com o da direita enxergo mal . Ele é triste, vesgo e daltônico – contenta-se com cinzas. O mundo que vejo com meu olho direito é um triste pântano de onde ressoam gritos de crianças, prantos de velhos e lamentos de mães. Esse olho só capta os campos refugiados africanos, as covas rasas dos cemitérios, os becos imundos das cidades, os mísseis espatifando velhos e os cristãos abençoando a guerra. Ele é pessimista e contempla a vida como uma estrada sinuosa, sempre devolvendo os seus viajantes ao pó de onde vieram. Meu olho direito é míope. Não alcança muito longe; nada espera das ideologias e há muito se desiludiu com toda utopia – religiosa ou filosófica. Ele só espia por entre frestas, por isso, só permite que cheguem sombras ao coração. Não distingue Deus; apenas um imenso vazio provocado por sua ausência.

Já com o meu olho esquerdo, enxergo bem. Ele é multifacetado como o olhar dos insetos; fragmenta a luz e cria arco-íres em meu espírito. Observa o mundo como um prado de onde ressoam as mais belas sinfonias. Meu olho canhoto é otimista; acredita que as estrelas brilham porque são pequenos espelhos refletindo a beleza humana. Ele reconhece o Criador nos lábios do poeta quando lamenta; no canto do namorado quando serenata apaixonado; no riso da mãe quando afaga a filha que voltou. Nesse olho moram os Juazeiros eternamente verdes, os raros Uirapurus com suas orquestras sinfônicas e os relâmpagos acompanhados de seus estalos monumentais. Com ele, antevejo bois pastando ao lado das cobras; artesões transformando o ferro dos canhões em arados e Deus brincando de roda com as crianças no crepúsculo do dia.

Confesso que em vários momentos fechei um dos meus olhos. Permiti que minha fé azedasse ou amornasse e assim perdi a gesta heróica. Hoje quero dar-me ao mundo, sem o olhar implacável dos cínicos; desejo acreditar no amanhã sem o semblante crédulo dos ingênuos.

Abrirei os meus dois olhos e terei esperança. E minha esperança me salvará de mim mesmo. Reconheço que a vida acontece nesse espaço que fica entre os porões úmidos da desgraça e os palcos festivos da felicidade. É aí onde quero dar-me, nunca esquecendo de prantear com os que choram e rir com os que bailam.

Ricardo Gondim

2.1.08

Perestroika, O Limite Dos Sonhos


Perestroika, O Limite Dos Sonhos

Acabou-se um sonho lindo.
Morreram todos os inimigos do rei.
Onde estão os teus soldados, oh Stalingrado gloriosa?
Onde está teu muro eterno que julgavas escarlate impenetrável?

Chorem filhos do Oriente, pois morreu a sua amada. Seu vestido vermelho foi profanado. Suas rugas foram sepultadas sob negro véu sob argêntea luz de manhã funérea, adornada com flocos de neve que caem lentamente como lágrimas de Trotysk.

* * *

Após um longo minuto de silêncio sobre a cova, ouço ao longe, ressoar nos prados, o choro dos sinos das catedrais ortodoxas. A prateada luz ganha matizes nos santos vitrais, e acaricia velhas com seus rosários, não mais secretos, vigorosamente empunhados, que cruzam as portas outrora trancadas perpetuamente.

Ao longe, avisto revoadas de pombas e corvos através do Urais, de volta do exílio.
Vejo imãos que se abraçam nas ferrovias e nas portas das prisões; mães a fincar as lápides de seus príncipes recém achados e jovens a encher plenamente de liberdade seus pulmões atrofiados.

* * *


T . M . V